assobiar uma melodia.
- Você é louco, anão - disse Bronn, enquanto limpava a
gordura por debaixo das unhas com o punhal.
- Onde está o seu amor pela música, Bronn?
- Se era música o que queria, devia ter ficado com o cantor
como campeão. Tyrion sorriu.
- Isso teria sido divertido. Estou mesmo vendo-o parar as
estocadas de Sor Vardis com a harpa - reatou os assobios. -
Conhece esta canção? - perguntou.
- Ouve-se aqui e ali, em estalagens e bordéis.
- É de Myr. "As Estações do Meu Amor." Doce e triste, se
compreender as palavras. A primeira mulher com que me
deitei costumava cantá-la, e nunca fui capaz de tirá-la da
cabeça - Tyrion olhou para o céu. Estava uma noite fria e
límpida, e as estrelas brilhavam sobre as montanhas, tão
brilhantes e sem misericórdia como a verdade. - Encontrei-a
numa noite como esta - ouviu-se dizer. - Jaime e eu vínhamos
de volta de Lannisporto quando ouvimos um grito, e ela
apareceu correndo pela estrada com dois homens no seu
encalço, e gritando ameaças. Meu irmão desembainhou a
espada e foi atrás deles, enquanto eu desmontava para
proteger a jovem. Era quase um ano mais velha que eu, de
cabelos escuros, esguia, com um rosto que te partiria o
coração. Certamente que partiu o meu. Malnascida, meio
morta de fome, suja... mas mesmo assim adorável. Tinham-
lhe arrancado metade das costas dos farrapos que vestia, e
por isso enrolei-a no meu manto enquanto Jaime perseguia os
homens na floresta. Quando regressou, a trote, já tinha
arrancado dela um nome e uma história. Era filha de um
pequeno caseiro, tornada órfã quando o pai morrera de febre,
a caminho de... bem, na verdade de parte alguma. Jaime
estava todo eriçado para ir à caça dos homens. Não era
frequente que foras da lei se atrevessem a atacar os viajantes
tão perto do Rochedo Casterly, e ele tomou aquilo como um
insulto. Mas a moça estava assustada demais para partir
sozinha, e assim me ofereci para levá-la até a estalagem mais
próxima e alimentá-la enquanto meu irmão cavalgava de
volta ao Rochedo para buscar ajuda. Ela estava com mais
fome do que eu julgaria possível. Acabamos com dois frangos
inteiros e parte de um terceiro, e bebemos um jarro de vinho,
conversando. Eu só tinha treze anos, e temo que o vinho me
tenha subido à cabeça. Quando dei por mim, partilhava a sua
cama. Se ela era tímida, mais tímido era eu. Nunca saberei
onde encontrei coragem. Quando lhe rompi a virgindade, ela
chorou, mas depois me beijou e cantou a sua cançãozinha, e
quando a manhã chegou, eu estava apaixonado.
- Você? - a voz de Bronn soava divertida.
- Absurdo, não é? - Tyrion recomeçou a assobiar a canção. -
Casei com ela - admitiu por fim.
- Um Lannister de Rochedo Casterly casado com a filha de
um caseiro - disse Bronn. -Como conseguiu isso?
- Ah, ficaria espantado com o que um rapaz pode fazer com
algumas mentiras, cinquenta peças de prata e um septão
bêbado. Não me atrevi a levar minha noiva para casa, no
Rochedo Casterly, por isso lhe arranjei uma casa de campo e
durante uma quinzena brincamos de marido e mulher. E
então passou a bebedeira do septão, que confessou tudo ao
senhor meu pai - Tyrion surpreendeu-se com o modo como
dizer aquilo o fazia sentir-se desolado, mesmo depois de
tantos anos. Talvez estivesse apenas cansado. - Assim foi o
fim do meu casamento - sentou-se e fixou os olhos na fogueira
que se extinguia, piscando.
- Mandou a moça embora?
- Fez melhor que isso - disse Tyrion. - Primeiro, obrigou meu
irmão a me contar a verdade. A moça era uma prostituta,
percebe? Jaime organizou tudo, a estrada, os foras da lei,
tudo. Achou que já era tempo que eu tivesse uma mulher.
Pagou o dobro por uma donzela, sabendo que seria minha
primeira vez. Depois de Jaime ter feito sua confissão, para
que a lição ficasse bem aprendida, Lorde Tywin trouxe minha
esposa e a deu aos guardas. Pagaram-lhe bem. Uma peça de
prata por cada homem; quantas prostitutas exigem um preço
tão elevado? Sentou-me a um canto da caserna e obrigou-me
a assistir e, no final, ela tinha tantas peças de prata que as
moedas escorregavam entre seus dedos e rolavam para o chão,
ela... - a fumaça estava ardendo em seus olhos, Tyrion limpou
a garganta e desviou o olhar do fogo, perdendo-o na
escuridão. - Lorde Tywin obrigou-me a ser o último - disse em
voz baixa. - E me deu uma moeda de ouro para pagá-la,
porque era um Lannister, e por isso valia mais.
Depois de algum tempo, ele voltou a ouvir o barulho, o raspar
de aço na pedra em que Bronn afiava a espada.
- Com treze, trinta ou três anos, eu teria matado o homem que
me fizesse isso. Tyrion virou-se para encará-lo.
- Pode ter essa chance um dia. Lembre-se do que lhe disse.
Um Lannister paga sempre suas dívidas - bocejou. - Acho que
vou tentar dormir. Acorde-me se estivermos prestes a morrer.
Enrolou-se na pele de gato-das-sombras e fechou os olhos. O
chão era pedregoso e frio, mas passado algum tempo Tyrion
Lannister adormeceu. Sonhou com a cela aberta. Dessa vez
ele era o carcereiro, não o prisioneiro, grande, com uma
correia 